Fiscalização sem papel

 

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Em vez do papel, um tablet. A substitução do modelo tradicional de fiscalização pelo uso de dispositivo móvel, equipado com sistema de inspeção de obras Software SnagR, entrou em vigor em dezembro do ano passado em duas obras de habitação social da JRA Empreendimento e Engenharia, no município de Votorantim, no interior de São Paulo. Com isso, a empresa ganhou agilidade no processo e reduziu os contratempos em decorrência das análises subjetivas.

Desenvolvido por uma empresa inglesa de mesmo nome, o SnagR tem como objetivo o registro de falhas construtivas observadas em campo, que podem ser analisadas como defeitos, deficiência no método empregado, falta de treinamento/orientação de quem está executando ou ainda itens de fácil reparação que, eventualmente, não são consideradas falhas construtivos.

A JRA optou por adotar o software em dois empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida que estavam começando para acompanhar o processo desde o início. Foram escolhidos dois conjuntos de prédios residenciais, um voltado para faixa 1 ( com renda familiar de até R$ 1,6 mil) com 13 blocos, e outro para faixa 2 (renda de até R$ 3,1 mil) com 17 blocos. “Com a ferramenta em mãos, tornou-se mais fácil e clara a análise dos dados, produzindo relatórios de análise crítica, muito bem- aceito pelos empreiteiros, que passaram a evitar retrabalhos”, analisa Walter Esber Saad, coordenador de projetos de obras da JRA Empreendimento e Engenharia.

De maneira geral, o processo da inspeção segue os mesmos princípios utilizados no método tradicional. O que muda é a forma como ele é realizado: agora os fiscais preenchem os formulários usando o dispositivo móvel e as informações de cada relatório e de cada tablet são sincronizadas com o sistema central quando há conexão de internet, já que o software está hospedado no servidor da Astrein, empresa que comercializa o SnagR no Brasil.

Assim, a solução permite que vários inspetores realizem suas funções concomitantemente usando seus tablets e, posteriormente, com o trabalho concluído, suas averiguações são atualizadas no sistema, que é único e todos têm acesso às mesmas informações. Sem a burocracia do papel, a fiscalização ganhou agilidade e reduziu o tempo para constatar falhas e fazer os reparos, mitigando o risco de o problema se agravar.

Preparando o uso do sistema
A ferramenta permite marcar o local exato das ocorrências, fotografar e classificar os defeitos e as não conformidades encontradas, plotando sobre os desenhos na tela do dispositivo móvel. Para cada apontamento feito, é possível determinar a prioridade, o responsável pelas providências e compartilhar as informações da obra com o escritório central ou contratante público em tempo real, utilizando conexão GPRS ou Wi-Fi.

O SnagR está baseado no conceito de perfect delivery, criado por construtoras europeias que designaram um departamento responsável pela qualidade da entrega, seja ela parcial (a cada fase) ou a entrega final da construção. Os técnicos usam o sistema para consultarem plantas, desenhos ou diagramas diretamente no dispositivo móvel e também aplicar formulários de inspeção e checklists adaptados à realidade de cada construtora.

Ao adotar o software, a construtora ou fiscal de obra precisa personalizar o sistema de modo que ele tenha as informações sobre cada uma das obras que vai fiscalizar. Deve-se, antes de tudo, inserir as plantas para a navegação e nomear os locais das plantas para facilitar a identificação (por exemplo, banheiro 1, dormitório 2 etc.).

Após esta fase, são carregados no sistema os formulários de inspeção com a lista de defeitos, falhas e erros padrão, definidos pela empresa ou fiscal de órgão público – normalmente, segue-se o que já era usado no papel. Alguns aproveitam o momento para repensar as melhores práticas e aperfeiçoar o processo. Esta lista deve ser completa e, uma vez carregada, serve para a fiscalização de diversas obras. Caso haja necessidade, pode-se adicionar elementos aos relatórios.

A JRA Empreendimento e Engenharia aproveitou os dados que tinha no material em papel para preparar a versão digital. Todo o processo levou cerca de 20 dias para relacionar a lista de defeitos de cada setor e as etapas de serviços.

Com o sistema personalizado, o aplicativo é baixado nos tablets dando acesso às plantas de navegação e aos formulários. A ferramenta pode ser usada off-line e, quando houver conexão à internet, os dados inseridos são sincronizados com o sistema. A JRA possui dois tablets por obra que chegam a ser usados por quatro inspetores por obra.

Processo de fiscalização
Os formulários digitais são personalizados seguindo a metodologia de fiscalização de cada agente fiscalizador ou construtora. No caso da JRA Empreendimento e Engenharia, em complemento ao registro dos defeitos, a empresa também implantou o preenchimento das fichas de verificação de serviços (FVS), componente do programa de qualidade de obras (PQO), necessário para registro e verificação da correta execução dos serviços e onde se anota eventuais desvios ou falhas na execução, com indicação da equipe responsável, e prazo para reparação, quando é novamente verificado o serviço.

Na JRA Empreendimento e Engenharia, cada etapa construtiva possui uma FVS que verifica as condições dos serviços executados (por exemplo, se houve falha construtiva, se há necessidade de reparos etc.) e promove a liberação do serviço subsequente. Encontrando-se os serviços de forma correta, a FVS é fechada. No entanto, se há falhas ou erros, é solicitada a correção ao responsável, dando-se prazo para execução, e depois se retorna para liberação dos serviços.

Neste caso, mesmo com a correção, a FVS é fechada indicando a falha, com a observação de que foi corrigida. “Isto é importante para a compilação dos dados e a verificação de onde foi diagnosticada a falha pela coordenação”, explica Walter Esber Saad. A JRA optou por registrar toda e qualquer anomalia aparente visando à coleta de todos os dados para uma análise da equipe de coordenação da realidade do canteiro de obras e a adoção das medidas corretivas

“O uso da ferramenta complementou um serviço que já vinha sendo realizado e possibilitou que qualquer profissional envolvido na obra pudesse registrar eventuais falhas construtivas, independentemente dos responsáveis pela fiscalização”, conta. A utilização do papel dificultava a análise e a compilação de todos os dados observados em campo para tomada de decisão das medidas corretivas.

Após a compilação dos dados, a empresa procura realizar uma reunião com todos os chefes de equipes para apontar os problemas constatados e as ações corretivas, seja na orientação direta dos funcionários, nos reparos dos serviços, na melhora do método empregado e no reparo da ferramenta/material utilizado na execução dos serviços.

Mais agilidade
A maior agilidade é apontada como um dos grandes benefícios da adoção do SnagR. Com o uso do papel, a fiscalização fica fragmentada e tem de seguir uma programação prévia de vistoria, pois se deve organizar a papelada necessária para inspecionar cada área. “Se saísse para verificar A e visse um defeito em B, não havia como fiscalizar”, relata Saad. Com o uso do software no tablet, este cronograma torna-se desnecessário.

A mudança do papel para o digital também diminui a subjetividade na hora de descrever as falhas, pois os fiscais devem usar os formulários com as informações padronizadas. Isto evita erros que eram cometidos no processo anterior, quando o fiscal escrevia no papel sua visão do defeito, dando os nomes que imaginava serem os corretos, e outra pessoa transcrevia os dados.

Outra faceta do software que agradou os usuários foi a possibilidade de tirar fotos com o tablet e inseri-las no relatório. Isto ajuda para explicar melhor as falhas e facilita a correta verificação dos problemas, algo que, no método convencional, não era possível.

“O uso da ferramenta possibilitou de uma forma mais ágil a compilação dos dados e a localização de itens mais antigos, que anteriormente ficavam arquivados, dificultando a procura de algum dado quando necessário”, explica o coordenador.

Quando questionado sobre as desvantagens do novo processo, Walter Esber Saad apontou o cuidado com o equipamento (tablet) e a eventual dificuldade na leitura por incidência solar. O executivo relata que não houve resistência na aplicação do software, uma vez que a equipe de inspeção, formada por jovens estagiários, está familiarizada com as ferramentas eletrônicas.

No entanto, houve a necessidade de prover orientação aos inspetores, que estavam receosos de incluir todos os defeitos e depois serem taxados de “dedo-duro” pela equipe. Saad conta que o problema foi solucionado com uma reunião entre os integrantes da equipe (empreiteiros e fiscalizadores) mostrando a importância do registro e das vantagens a serem obtidas.

A empresa não abriu números relacionados a investimentos no sistema. A compra foi no modelo como serviço e inclui a licença do software mais os dispositivos móveis, que, ao fim do projeto, devem ser devolvidos a Astrein.

Fiscalização digital, na prática
Entenda como funciona o SnagR, software que está sendo usado para fiscalização de duas obras da JRA Empreendimento e Engenharia.

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Fonte: Revista Infraestrutura Urbana
Editora: PINI